Frio é relativo

30ºC
Baianos vão à praia, dançam, cantam e comem acarajé.
Cariocas vão à praia e jogam futebol.
Mineiros comem um "queijin" na sombra.
Todos os paulistas estão no litoral e enfrentam 2 horas de fila nas
padarias e supermercados da região.
Lajeanos esgotam os estoques de protetor solar e isotônicos da cidade.
25ºC
Baianos não deixam os filhos sairem ao vento após as 17 horas.
Cariocas vão à praia mas não entram na água.
Mineiros comem um feijão tropeiro.
Paulistas fazem churrasco nas suas casas do litoral, poucos ainda entram na água.
Lajeanos reclamam do calor e não fazem esforço devido esgotamento físico.
20ºC
Baianos mudam os chuveiros para a posição "Inverno" e ligam o ar quente das casas e veículos.
Cariocas vestem um moletom.
Mineiros bebem pinga perto do fogão a lenha.
Paulistas decidem deixar o litoral, começa o trânsito de volta para casa.
Lajeanos tomam sol no parque.
15ºC
Baianos tremem incontrolavelmente de frio.
Cariocas se reúnem para comer fondue de queijo.
Mineiros continuam bebendo pinga perto do fogão a lenha.
Paulistas ainda estão presos nos congestionamentos na volta do litoral.
Lajeanos dirigem com os vidros abaixados.
10ºC
Decretado estado de calamidade na Bahia.
Cariocas usam sobretudo, cuecas de lã, luvas e toucas.
Mineiros continuam bebendo pinga e colocam mais lenha no fogão.
Paulistas vão a pizzarias e shopping centers com a família.
Lajeanos botam uma camisa de manga comprida.
5ºC
Bahia entra no armagedon.
César Maia lança a candidatura do Rio para as olimpíadas de inverno.
Mineiros continuam bebendo pinga e quentão ao lado do fogão a lenha.
Paulistas lotam hospitais e clínicas devido doenças causadas pela
inversão térmica.
Lajeanos fecham as janelas de casa.
0ºC
Não existe mais vida na Bahia.
No Rio, César Maia veste 7 casacos e lança o "Ixxnoubórdi in Rio".
Mineiros entram em coma alcoólico ao lado do fogão a lenha.
Paulistas não saem de Casa e dão altos índices de audiência a Gilberto
Barros, Gugu Liberato, Luciana Gimenes e Silvio Santos.
Lajeanos fazem um churrasco no pátio… Antes que esfrie.

Mais uma de Francis

“Estive lendo aos pulos uma biografia de Einstein, como era mesmo o nome? Depois de provar que os absolutos mecânicos de Newton eram falsos e que não existe uma ordem no universo (em termos matemáticos, não exagerem nas generalizações), Einstein passou o resto da vida procurando provar que se enganara. Juro. Estou simplificando grosseiramente a questão, claro, mas isto aqui é um jornal dito popular, logo, excuseme. O fato é que, raspadas as complexidades suplementares do raciocínio de Einstein, é isso mesmo que ele tentou: encontrar um princípio normativo da desordem universal, ou seja, ordem dentro da desordem. Sifu, evidentemente. O biógrafo acha essa história "trágica". Foi aí que joguei o livro pro lado. Por que trágica? Rotineira seria a palavra exata. Sem a capacidade de Einstein não fazemos outra coisa se não buscar tertezas de permanência, organização e lucidez, com os resultados conhecidos. O gênio apenas nos revela o que escondemos de nós próprios, o que já estava em nós o tempo todo. Aguenta firme, bicho”

Paulo Francis

“Me sinto muito à vontade neste país. Considero um privilégio poder assistir de perto à ascensão, declínio e queda do império romano, ao mesmo tempo, uma história bem mais complicada que aquela contada por Gibbon. E vou tentar extrair um pouquinho dela pra vocês. Em primeira mão.”

Isso Francis escreveu muito antes dessa crise mundial, gerada pelos americanos.

Linguagem forense

Dois zeladores do fórum, muito caipiras mas extremamente observadores, numa certa manhã de pouco
serviço, depois de vinte anos de trabalho no local, habituados aos linguajar forense, postaram-se a
prosear:
– Compadre João, hoje amanheci agravado. Tentei embargar esse meu sentimento retido, até que decaí.
“Cassei” uma forma de penhorar uma melhora, arrestar um alento, seqüestrar um alívio, mas a dor fez
busca e a apreensão da minha felicidade. Tive uma conversa sumária com a minha filha sobre o
ordinário do noivo dela. Disse que vou leva aquele réu pro Fórum, seja em que foro for. Vou pedir ao
Juízo, ao Ministério Público, de qualquer instância ou entrância. Não importa a jurisdição, mas esse
ano aquele condenado casa.
– Calma, compadre Pedro – interrompeu o zelador João – Preliminarmente, sem querer contestar ou
impugnar sua inicial, aconselho o senhor a dar uma oportunidade de defesa para o requerido – atente
para o contraditório. Eu até dou pro senhor uma jurisprudência a respeito: minha filha tinha,
também, um namorado contumaz, quase revel. O caso deles, em comparação ao da sua filha, é
litispendência pura; conexão, continência… E eu consegui resolver o incidente. Acho que o senhor tá
julgando só com base na forma, sem analisar o mérito.
O zelador Pedro, após ouvir, retrucou:
– Mas compadre, não tem jeito. O indiciado não segue o rito: se eu mostro razão, ele contra-razoa;
se eu contesto, ele replica. Pra falar a verdade, tô perdendo a contrafé. Achei que, passada a fase
instrutória, depois da especificação, a coisa fosse melhorar. Mas não. Já tentei de toda forma
sanear a lide – tudo em vão. Baixei, outro dia, um provimento, cobrando custas pelo uso do sofá lá
de casa, objeto material que os dois usam de madrugada. No entanto, ele, achando interlocutória
minha decisão, apelou, e disse que não paga nem por precatório. Aí eu perdi as estribeiras:
desobedeci o princípio da fungibilidade e deixei de receber o recurso…
– Nossa, compadre, o senhor chegou a esse ponto? – indagou o zelador João, que continuou:
– Mas, compadre, o bem tutelado é sua filha – releve. Faça o seguinte, compadre Pedro: marque uma
audiência, ouça testemunhas e nomeie perito. Só assim vamos saber se a menina ainda é moça. Se houve
atentado ao pudor ou se a sedução se consumou.
Pedro ouvia atento, quando interferiu:
– É mesmo, compadre. Se ele não comparecer, busco debaixo de vara; ainda assim, se não encontrar
ele, aplico a confissão ficta.
… Quando eu lembro que ele tá quase abandonando a causa… Minha filha naquela carência, e o suplicado
sem interesse; ela com toda legitimidade, e ele só litigando de má-fé.
– Isso mesmo, compadre Pedro – apoiou João, que completou:
– O processo deve ser esse. O procedimento escolhido é o mais certo. Mas, antes de sentenciar,
inspecione e verifique se tudo foi certificado. Dê um prazo peremptório, veja o direito substantivo
e procure algum adjetivo na conduta típica do elemento. Cuidado para não haver defeito de
representação, pois do contrário, tudo pode ser baixado em diligência. … Só tem um problema –
ponderou:
– É que a comadre é uma tribunal – o senhor é “a quo” e ela é “ad quem”… Se sua mulher der apoio ao
rapaz, tá tudo perdido: baixa um acórdão já transitado em julgado, encerra a atividade jurisdicional
do senhor e manda tirar o nome do moço do rol dos culpados, incluindo o compadre.
– É… É, compadre – disse Pedro desanimado. O senhor tem razão. Eu vô é largar mão dessa minha
improcedência, efrescar meus memoriais, e extinguir o caso, arquivando o feito, com baixa na
distribuição. Acho, até, com base na verdade real, que a questão de fundo da menina já foi sucumbida
pelo indiciado. Não cabe nem rescisória.
E no mesmíssimo momento, exclamaram os compadres:
– “Data vênia”!